BIBLIOTECA NACIONAL: PROJETO FÊNIX
A Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro deve receber – por exigência da Lei de Depósito Legal – pelo menos um exemplar de tudo o que é publicado no Brasil. Isso dá uma ideia do tamanho do acervo: uma estimativa de oito anos atrás rondava a casa dos dez milhões de obras. Além de livros sobre assuntos dos mais variados tipos, jornais e revistas, a BN guarda ainda obras que são consideradas verdadeiras joias – desde manuscritos até livros que são exemplares únicos no mundo. As edições especiais são guardadas em cofres especiais e não estão disponíveis ao público em geral para consultas.
Manusear uma edição impressa no século 16, por exemplo, é privilégio para poucos: pesquisadores começam a pesquisa a partir de microfilmagens ou arquivos digitalizados e apenas no fim podem ter acesso ao livro original. A restrição acontece porque grande parte das edições está em condições precárias; e mesmo as que já foram restauradas precisam de cuidado especial na hora do contato físico.
Projeto Fênix
“O projeto Fênix, de recuperação destas obras, está preocupado em fazer com que o livro possa ser novamente tocado”,
explica a chefe de divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional, Ana Virgínia Pinheiro.
“Não é uma questão estética – tentar deixá-lo bonito – mas sim uma forma de tratá-lo e higienizá-lo para que possa sobreviver por mais tempo”, diz.
Pelo menos 129 peças serão recuperadas no projeto, desenvolvido desde fevereiro de 2009 pela Divisão de Obras Raras com o intuito de restaurar os exemplares de maior valor para a pesquisa e que tem o patrocínio do BNDES no valor de R$ 374.778,00.
O setor de Obras Raras tem cerca de dois quilômetros de livros enfileirados: grande parte pertenceu à Biblioteca Real. Essa biblioteca é tratada como um organismo vivo, e seus livros como entidades. E como tudo o que está vivo, também a biblioteca de obras raras está fadada a lutar contra a morte.
No bojo do Projeto estão os objetivos de
"disponibilizar para consulta, novamente, as obras cujo avançado estado de deterioração física inviabiliza seu manuseio; facilitar a pesquisa, garantindo o fluxo evolutivo da ciência, pelo acesso material e intelectual a itens fundamentais do conhecimento registrado e organizado; promover o acesso eletrônico, local e à distância, através de imagem digital da íntegra dos títulos mais raros do conjunto; garantir o direito de acesso à informação registrada e difundida, como recurso de salvaguarda da memória mundial".
Entre os livros selecionados, o primeiro a ser restaurado foi o Diuina Proportione (1514), de Luca Pacioli, com figuras de sólidos geométricos desenhadas por Leonardo da Vinci. O título, assim como os outros 149 congraçados, passou também por um processo de documentação, chamado Sistema Híbrido de Preservação, em que foi recuperado, microfilmado, digitalizado e disponibilizado ao público via internet. O livro de Luca Pacioli já está na rede, no site da Biblioteca Nacional Digital (http://bndigital.bn.br/) e, em outra inciativa do setor de Obras Raras que tem tornado acessível os livros antigos ao público em geral, está entre as peças que foram reproduzidas como um fac-símile e estão à venda (o custo aproximado é de R$ 20,00).
Exposições
Ana Virgínia Pinheiro afirma que o processo permitiu a redescoberta de belíssimas encadernações de veludo e couro que serão apresentadas ao público em uma exposição sobre encadernações luxuosas, que revelam o trabalho artístico do encadernador. As exposições fazem parte de um projeto maior de difusão das obras raras e estreitamento do contato com o público, principalmente o pesquisador. Nesse sentido, está em fase de montagem uma exposição sobre esportes, que foi sugerida por um professor de Educação Física da UFRJ.
Inferno
Outro tema que deve merecer curadoria é o Inferno, título que nomeia uma coleção de livros considerados "malditos" ao longo dos séculos, censurados ou escondidos, e que também está na fila de espera por patrocínio para o restauro. A coleção tem raridades como Mein Kampf, de autoria de Adolf Hitler; tomos pornográficos de diversos séculos; além dos censurados pela ditadura militar brasileira.
"Na época da censura no Brasil, bibliotecários transferiram diversos títulos de sua seção original para a Divisão de Obras Raras com o intuito de salvá-los do desaparecimento", conta Ana Virgínia Pinheiro.
“Não tínhamos a informação de que elas estavam aqui. Quando começamos a catalogar as peças, nos perguntamos o que aconteceu? Então notamos que elas não passariam despercebidas aos olhos de um censor, por isso foram escondidas. Tem um livro que fala de técnicas de desenho que parece inocentíssimo. Lá pelas tantas, as páginas começam a mostrar imagens nitidamente homoeróticas”, completa ela.
Cemitério
Os livros que correram até mesmo o risco de desaparecer no período da repressão – como desapareceram tantas pessoas que pensavam e agiam diferente das regras impostas – também correm risco de morte. Assim, Cemitério é o nome de outra coleção de destaque, que abriga os exemplares decrépitos, putrefados e que, por obra do tempo, de materiais frágeis e do mau uso, acabaram "blocados", ou seja, tiveram suas páginas coladas umas as outras, metamorfoseando-se de tijolo, e que aguardam por um processo de restauro que, espera-se, deverá surgir no futuro.
Obras Destacadas
Além do Diuina Proportione, entre as raridades do acervo está a Emblemata, publicada em 1624, em Amsterdã, escrita por Johan de Brune e considerada rara porque também tem características das edições flamengas, da região de Flandres, como a impressão em papel de baixíssima qualidade, usada para aumentar as tiragens. As emblematas tratavam de orientações morais e ensinavam, por exemplo, como a pessoa deveria se comportar diante de um amigo.
“O livro traz imagens de mães em condição de maternidade, uma coisa inédita no século 17. Não era de praxe retratar a vida cotidiana das pessoas. O que existia neste período sobre maternidade eram somente imagens da virgem Maria segurando o menino Jesus. Mas este livro mostra a imagem de uma mulher evidentemente nobre, com roupas de gola alta e renda, que está trocando a fralda suja de uma criança”,
diz Ana Virgínia.
Outro tesouro é O Fênix de Minerva: o livro fala de técnicas de memorização e deve ser o primeiro livro deste gênero publicado em língua espanhola – a edição de 1626 (Madri) está na fila para ser restaurada pelo projeto Fênix. A obra ensina os estudantes a decorar textos, dados e ainda como fazer para não esquecê-los.
Manuais
No século 17 já havia a preocupação em se criar manuais para quem fosse casar. A Carta de guia de casados, de 1651, foi escrita por Francisco Manuel de Melo – ela tem formato estreito, como se fosse uma edição para se ter sempre à mão; estabelece regras bastante rígidas para as mulheres e outras bem flexíveis para os homens. Uma parte do manual sugeria às mulheres tomar cuidado com as empregadas, porque elas poderiam lhes roubar o marido (foto abaixo, de Pollianna Milan).
Pioneirismo
Algumas edições do setor de Obras Raras são pioneiras na utilização de certas técnicas. A Cosmografia, de Petri Apiani (1551), impressa em Paris, traz nas páginas algumas pequenas peças que se movem – denominadas semoventes.
“Os livros infantis atuais, que usam este recurso, devem ser uma imitação de Apiani”, afirma Ana Virgínia.
Outro livro raro é o de Schedel – escrito na Europa no século 15 – que foi o primeiro a retratar mapas com a técnica “vista de pássaro”. É algo semelhante ao que se vê hoje no Google Maps: a imagem das casas aparece em três dimensões – o teto e pelo menos duas laterais.
Diante destes exemplos, pode-se considerar que a divisão de raridades da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro é um baú cheio de preciosidades a preservar e descobrir.
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